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Paul do Boquilobo

​O Paul do Boquilobo é um lugar onde a água dita o ritmo da paisagem e da vida. Reconhecido em 1981 como Reserva da Biosfera, sendo a primeira em Portugal, esta zona húmida e pantanosa de grande importância para a biodiversidade acompanha o percurso final do Rio Almonda, desde a Serra de Aire até à margem direita do Rio Tejo. Entre Torres Novas e Golegã, o Paul revela-se como um espaço de transição e equilíbrio, onde as estações transformam a paisagem e a natureza encontra formas subtis de resistir, renovar e coexistir.

No outono, as nuvens carregadas de água regressam para hidratar os terrenos secos deixados pelo verão. As árvores “comunicam” através da mudança de cor das folhas, que lentamente caem até ficarem totalmente despidas. As valas ripícolas, corredores ecológicos, voltam a encher-se de água e a distribuí-la por toda a zona húmida interligando os ecossistemas aquáticos e terrestres. O galeirão, o arrábio, o marrequinho, o zarro, a frisada e o pato-real escondem a timidez e fazendo-se ouvir nas áreas alagadas. Nas manhãs de nevoeiro, as águas armazenadas sobem novamente à atmosfera, dando continuidade ao ciclo da água.

No inverno, a nudez da natureza torna-se evidente. Os ninhos construídos na primavera revelam agora as suas posições, e os pássaros tornam-se mais visíveis entre os ramos despidos das árvores. Lentamente, a vida prepara o seu regresso: entre dias frios e húmidos, o verde começa a surgir de forma subtil, anunciando a mudança da estação.

A primavera traz novas cores ao Paul do Boquilobo. Os primeiros sinais surgem nas margens alagadas, onde o ranúnculo-aquático revela as suas flores à superfície da água, formando manchas brancas que atraem insetos polinizadores. Estes desempenham um papel essencial na cadeia alimentar, servindo de alimento às novas espécies que chegam à reserva.

É nesta altura do ano que as espécies migradoras regressam, na esperança de garantir as próximas gerações. A atenção centra-se na nidificação, uma fase particularmente sensível: a proteção dos ninhos e das crias é essencial, pois os predadores estão atentos a qualquer momento de descuido.

Embora não seja o principal destaque do Paul do Boquilobo, o montado da reserva é um espaço de especial interesse. Hoje resta apenas uma pequena parcela de uma área outrora mais extensa, marcada ao longo do tempo pela atividade humana. A linha de comboio com direção a Lisboa estabelece uma fronteira física entre a reserva e os terrenos envolventes, mas não impede a presença constante da biodiversidade.
Neste mosaico de sobreiros, a vida selvagem mantém-se ativa e discreta no território, deixando sinais da sua passagem. O montado funciona assim como um refúgio silencioso, onde a natureza resiste, adapta-se e continua a desempenhar um papel essencial no equilíbrio da reserva.

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Todas as imagens © Simão Paulo 2026

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